Com o certificado de conclusão do curso de ensino médio em mãos, finalizado em julho de 2018, Maria Perolina diz com orgulho que completou os estudos aos 51 anos de idade. “Antes tarde que nunca”, diz em meio aos risos de alegria. Essa felicidade é do tamanho da espera. Até os 17 anos, Maria ainda era analfabeta.

Na infância e juventude, teve dificuldades no acesso a escola, morando em Mazagão, distrito do interior do Amapá, a 70km da capital. Esta cidade teve origem em uma vila de colônia portuguesa. O curioso é essa vila contar um capítulo pouco conhecido do Brasil, quando uma colônia portuguesa no Marrocos, na África, foi desativada e transferida para a Amazônia brasileira. Os primeiros habitantes, aproximadamente 160 famílias, chegaram à região em 1769. E a vila ficou conhecida pelo seu calendário anual de festas tradicionais e religiosas. Carregando essa cultura, Maria Perolina pratica sua religiosidade com afinco e não abre mão de carregar disso onde quer que vá. Conta que foi necessário mudar para Macapá porque “queria estudar e trabalhar de doméstica”. E conseguiu. Assim que chegou à cidade ingressou nos estudos e foi alfabetizada aos 18 anos de idade.

Gostou de aprender e não faltava às aulas. Nem quando nasceu sua primeira filha, Gilmara. Criando a menina sozinha, aos 22 anos, estudar era primordial. “Sempre soube que conhecimento era uma questão muito importante na vida”, ressalta já com um ar de tristeza pela informação que daria em seguida: “Mas aos 26 anos mudei de bairro, e a escola ficou bem distante. Tinha dificuldades para chegar lá, e abandonei os estudos”.

A vida de mãe solteira também contribuiu para que Maria Perolina priorizasse o trabalho e o sustento de suas filhas. Em 2002 ela deu a luz a sua segunda, Stefani. Morando sempre as três, precisou trabalhar duro para assegurar que as filhas focassem apenas na escola e na formação acadêmica. “Fiz questão que minhas filhas estudassem, não importava o quanto eu tivesse que trabalhar para garantir isso”.

Mesmo sem saber, Maria estava cumprindo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que prevê proteção integral às crianças e adolescentes brasileiras. Com base na Constituição Federal de 1988 e nas normas internacionais propostas pela Organização das Nações Unidas (ONU), esse conjunto de leis regulamentam a proteção dos direitos, como o acesso à educação, uma de suas principais premissas. Direito que foi a ela própria negado em sua infância.

Gilmara, hoje aos 29 anos, tem formação superior e é socióloga do IBGE. Stefani, com 16, cursa o ensino médio. E ao garantir a completa educação das filhas, ela endossou o valor do conhecimento e a relevância do estudo na vida de uma pessoa. Nada mais justo que as filhas também reconhecessem como era importante que a mãe se qualificasse. E num passeio pela Ação Global, um evento de cidadania realizado pelo SESI e Globo, as filhas encontraram uma chance de matricular a mãe gratuitamente no EJA, o curso para educação de jovens e adultos.

Trabalhando há quase uma década na Diocese de Macapá, Maria Perolina aceitou o desafio e com o incentivo das filhas saiu do evento matriculada na escola, retomando os estudos aos 49 anos. No mundo moderno, cheio de novas tecnologias, Maria encontrou na vontade de mexer na internet e no celular a motivação que precisava. Aprendeu o universo digital e conta para todo mundo “o estudo me fez melhorar em tudo! Todos os professores são ótimos. Carismáticos, bem preocupados, organizados e amorosos, me ensinaram a mexer no computador, no celular e agora não preciso tanto da ajuda das minhas filhas”.

E faz planos para o futuro. Fez um curso técnico na Diocese em que trabalha para educação religiosa e atualmente freqüenta aulas de inglês e francês. Não quer parar, pois acredita: “o valor da educação está em ter conhecimento. Você melhora no trabalho e nas relações sociais”.