Este é um dos cases que passaram durante os créditos da série “Segunda Chamada”.

A história de Alcira Maria Medeiros da Silva é um exemplo de sucesso. Nascida no povoado de Goiabeira, zona rural da cidade de Caxias, no interior do Maranhão, teve uma infância difícil, trabalhando em plantações e fora da escola. Nos intervalos da lavra de milho, realizava os afazeres domésticos como separar feijão e arroz. “Fazia de um tudo”, segundo ela. A região de Goiabeira não tem escolas. Sua mãe a ensinou a ler e escrever em casa. E hoje, aos 52 anos, está cursando a universidade. Futura pedagoga, diz que seu maior sonho é ajudar as pessoas. Tornou-se agente multiplicador. Promove a educação e incentiva a busca pelo conhecimento por onde passa.

Ter essa longa estrada acadêmica era apenas um sonho para aquela menina que perdeu a mãe com 7 anos. Somente depois da morte, descobriram a causa: câncer de mama. Após o trauma, Alcira, que carrega o mesmo nome da mãe, e os outros 7 irmãos foram separados. Distribuídos para morar com o pai, que se casou de novo, com a avó e uma tia materna. Depois voltou a morar com seu pai contra a sua vontade. A essa altura Sr. Antonio já tinha mais 9 filhos e ainda vivia do trabalho no campo. Com uma família tão grande, Alcira não tinha outra opção senão ajudar seu pai lavorando na roça e contribuir com as despesas da casa. Longe de qualquer escola, Alcira conta que sentia muito por não ter condições de pagar o transporte para chegar ao outro povoado e continuar aprendendo. “Eu falava pras minhas irmãs que eu ainda ia me mudar pra cidade e terminar meus estudos”.

Multiplicando conhecimento

E enquanto esperava este dia chegar, já atuava multiplicando seu amor pelo conhecimento. Dava aulas para crianças e jovens que também viviam na zona rural e eram analfabetas. Com a ajuda do pai, juntou quadro, cadeiras e muita força de vontade para ensinar. Trabalhava durante o dia na roça e dava aulas à noite. “Me sentia muito bem podendo transferir meu conhecimento pra aquelas crianças. Fiz isso por quase dois anos em casa. Recentemente, soube que uma das crianças que estudou comigo se formou em Direito. Deu um baita orgulho”.

Contudo, aos 16 anos, ainda sem perspectiva de voltar a estudar, Alcira se interessou por um rapaz mais velho, que queria casar. O pai era contra o casamento, então ela deu um ultimato: “ou o senhor me manda para a cidade estudar ou eu vou casar!”. O pai cedeu e a mandou para São Luís, capital do estado, morar com a Tia Lurdinha. Nesse período cursou até a sexta série do ensino fundamental. Dois anos depois foi a Goiabeira visitar a família, e a surpresa foi o tal rapaz ainda estar esperando por ela. “Ele não me deixou mais voltar para São Luís e me casei”. Este ano ela e Jacinto, pai de seus filhos, completam 32 anos de casados.

Tiveram três filhos. Um, infelizmente, faleceu. Jailson, de 30 anos, é ajudante de pedreiro e faz faculdade de Direito. Está no oitavo período. Jacira, de 28, iniciou a faculdade de Assistência Social, mas trancou a matrícula por falta de identificação com o curso. A mãe os influenciou a valorizar a formação acadêmica, porque acredita que aprender ultrapassa os muros da escola. “O conhecimento abre portas em todos os sentidos, a vida fica mais fácil. Minha convivência no trabalho e com a minha família melhorou muito. Minha comunicação com as pessoas e o raciocínio também ficaram diferentes”.

E ela não para por aí! Depois de casada foi morar no povoado Santo Amaro. Continuou trabalhando na roça e cuidando dos filhos, quando soube de um programa, criado pela prefeitura de Caxias, que remunerava pessoas que pudessem alfabetizar indivíduos da terceira idade. “Minha primeira turma tinha 15 alunos. Eu reaproveitei o quadro e cadeiras que tinha usado nas aulas de alguns anos atrás, coloquei todos eles dentro de casa e comecei a ensinar. Alguns alunos me diziam que nunca tinham conseguido aprender com nenhum professor, e que eu era a primeira que conseguia ensinar alguma coisa pra eles”. Foram duas turmas, que duraram 6 meses cada uma. Até que o programa acabou.

Sem desistir dos sonhos

Ela explica que antigamente no Maranhão, os profissionais da cidade não queriam ir trabalhar no interior, por isso os professores que trabalhavam na zona rural eram “leigos e tinham no máximo o curso técnico do magistério”. Em 1998, a política mudou e todos os professores tem graduação. Nessa condição, Alcira perdeu o contrato de professora.

Mas jamais desistiu de lecionar. Mudou-se para Caxias, para acompanhar os estudos dos filhos, e começou a trabalhar no período da manhã em uma vaga de merendeira de escola. “Logo que eu cheguei me falaram que tinha turma da Educação de Jovens e Adultos (EJA) no período da tarde e que eu poderia fazer as aulas. Aquele era o melhor trabalho da minha vida.” O edifício escolar tinha um anexo dentro das instalações do Serviço Social da Indústria (SESI). Foi onde conheceu a instituição e viu no programa de jovens e adultos a oportunidade de voltar a estudar. Com o apoio dos colegas que a incentivaram muito, resolveu se matricular. Estudou em 2001 para concluir o ensino fundamental e, em 2002, o ensino médio. “Foi a realização de um sonho. Para completar minha felicidade, teve até colação de grau”, comemora Alcira.

Além de finalizar os ensinos médio e fundamental no EJA, já fez inúmeros cursos técnicos, como Empreendedorismo na Escola, Alimentação Escolar, Cozinha Brasil, Corte e Costura, Relações Humanas e Informática Básica. “Essa é a vantagem de trabalhar em uma instituição que encoraja os funcionários a melhorar, oferecendo tantas alternativas”, Alcira analisa como funcionária do SESI. “Foi só quando eu comecei a trabalhar lá que vi a chance real de voltar a estudar”, completa.

Saber ensinar é uma vocação. Nem todas as pessoas conseguem repassar o conhecimento adquirido. Ter essa habilidade também requer metodologia. Por isso Alcira escolheu cursar Pedagogia. Atualmente estuda em uma graduação à distância, em módulo semi-presencial e está no quinto período. E garante que não vai parar. “A educação mudou o rumo da minha vida, e dos meus filhos. Hoje a gente tem uma vida mais tranquila, porque conseguimos entender as coisas de um jeito diferente. Saber ler, escrever, se comunicar e entender as coisas dá liberdade pra gente, eu queria que todas as pessoas pudessem conhecer essa liberdade”.

Ajudar as pessoas é uma missão que Alcira encara com seriedade. “Quero poder ajudar outras pessoas a descobrir novas oportunidades através da educação, assim como eu descobri. Hoje tenho dois empregos, tenho meu transporte, consegui realizar o sonho da casa própria e ajudar meus filhos. Tudo graças à oportunidade de estudo que tive no SESI”. O final feliz poderia ser perfeito se não fosse pela teimosia de seu marido, Jacinto Ricardo. O ditado “casa de ferreiro, espeto de pau” descreve muito bem o impasse de Alcira dentro de casa. A mulher disposta a ensinar a todos não consegue convencer o próprio marido a estudar. Jacinto é lavrador, ainda mora na zona rural e é analfabeto. Ela o visita todos os fins de semana e tenta, sem sucesso, convencê-lo a aprender.


Para ver o depoimento de Alcira Maria e de outros alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Serviço Social da Indústria (SESI) você pode:

  • Acessar o GloboPlay, se for assinante, pelo link: https://globoplay.globo.com/segunda-chamada/t/DYpvss7pz5/
  • Se não for assinante, acompanhar a série na TV Globo. Os episódios vão ao ar com os depoimentos dos nossos alunos durante os créditos finais dos programas nos seguintes dias:
    • 19 de novembro (Juçara Moraes, Raquel Borges e Aline da Cunha);
    • 03 de dezembro (Marilson Melo, Leila Lobato e André da Silva); e
    • 10 de dezembro (Tânia Souza, Luciana do Nascimento e Vanuse Moura).
  • Ou navegue em www.sempresesisenai.com.br/segunda-chamada para ver mais cases como este.