Este é um dos cases que passaram durante os créditos da série “Segunda Chamada”.
Foto: Mauricio Fidalgo/ Globo

Com cerca de 2,7 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos trabalhando irregularmente, o Brasil é hoje um dos países com maior índice de trabalho infantil da América Latina. Esses dados, apresentados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2016, representam um problema com inúmeras camadas. Além do esforço físico e intelectual realizado precocemente, assumir na infância um ofício compromete um tempo precioso no qual a criança deveria estar dedicando aos estudos e ao seu desenvolvimento como cidadão.

Dessas crianças é reprimida a oportunidade de serem apresentados a um mundo de possibilidades. Através da educação, novos horizontes são descobertos e talentos são lapidados. Afastados da escola, esses jovens perdem, muitas vezes, a chance de desenvolver por completo o seu potencial ainda na infância. Contudo, a dificuldade do passado não precisa determinar todas as escolhas do futuro. Com o apoio de projetos como o de Educação para Jovens e Adultos (EJA), milhares de brasileiros estão sendo expostos a novas alternativas e, com isso, estão transformando de vez as suas vidas.

A história do capixaba Francisco Alfredo de Souza reflete bem essa realidade. Filho de uma família humilde, o rapaz se viu impulsionado a trabalhar ainda muito cedo, com 12 anos. Na época, ele vendia picolé na rua e odiava a função pois tinha vergonha de gritar para atrair os clientes. Aos 14 anos, passou a trabalhar como engraxate e, aos 16 anos de idade, começou na carreira de pintor profissional de automóveis. Tentando equilibrar tantas atividades, o menino não foi capaz de conciliar suas obrigações escolares e abandonou o colégio na oitava série.

Reencontro com os estudos

O retorno de Francisco aos estudos aconteceu anos depois, quando já era casado e pai de dois filhos. Aos 33 anos de idade, o homem natural de Vitória, no Espírito Santo, decidiu concluir sua formação através de provas e supletivos do Estado. Contudo, a ausência de uma preparação recente e concentrada impediu que Francisco conseguisse a aprovação em disciplinas que sempre teve dificuldade: as temidas matérias exatas, matemática e física. Foi assim que seu caminho cruzou pela primeira vez com o Serviço Social da Indústria (SESI).

Através do projeto de Educação de Jovens e Adultos (EJA), Francisco teve a oportunidade de fazer as pazes com as disciplinas que tanto lhe aterrorizaram na infância. Segundo ele, quando menino, nunca teve professores que o incentivassem a superar a dificuldade com os números. Já no SESI, uma conversa sincera com o professor Nelson mudou sua perspectiva: “Ele sentou comigo depois da aula e falou que eu não podia ter na minha cabeça que eu não era capaz de aprender. Eu tinha criado um bloqueio que precisava ser superado. O professor me contou a sua história, que tinha vindo da roça e, assim como eu, não acreditava em si mesmo. Essa conversa mudou tudo. Depois dela, eu passei a ser o melhor aluno da matéria. Eu só tirava 9 e 10 em matemática e física, sem colar, sem nada. Só pelo incentivo”, relata Francisco. Assim, com determinação, um ano depois ele já estava em posse do seu diploma do ensino médio.

A retomada aos estudos abriu uma nova porta para o capixaba. Agora, sua vontade era de não parar por ali e seguir se aperfeiçoando. Nesse período, Francisco notou que um de seus hobbies poderia indicar uma habilidade capaz de lhe ajudar numa nova profissional. Seu prazer pela leitura já havia lhe proporcionado a criação de bagagem cultural, e agora iria lhe auxiliar no caminho para mais um sonho. Aos 40 anos de idade, ele se formou na faculdade de Direito. Em 2010, logo após a formatura, prestou a prova da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e se tornou oficialmente um profissional habilitado para advogar.

Novos desafios profissionais

O talento de Francisco na advocacia rapidamente começou a atrair novas oportunidades. Ao receber convites para lecionar, ele buscou se especializar em direito empresarial e civil. Após a experiência no SESI, que lhe provou a importância de um educador determinado na vida de um estudante, Francisco estava certo de que precisava ser um professor a altura daqueles que mudaram a sua vida. Por isso, mergulhou de cabeça nas teorias pedagógicas e se inspirou nos mestres que teve no EJA e na graduação. Sua dedicação logo lhe rendeu também reconhecimentos, dentro e fora da sala de aula. “Eu compartilho o conhecimento com os alunos e os avalio de acordo com a participação. O que eles fazem durante aula é muito mais importante pra mim do que qualquer prova. Talvez por isso eu tenha sido eleito duas vezes o melhor professor, além de ter recebido alguns convites para atuar como coordenador do curso”, comenta honrado.

Hoje, a vida de Francisco é muito diferente daquela do menino que vendia picolé a contragosto na rua. Devido às viagens que faz a trabalho, não pode mais se dedicar ao magistério, mas não perde o orgulho de ter atuado nessa função tão recompensadora. Para ele, o ponto de mudança veio quando decidiu retomar a formação acadêmica. O esforço e trabalho duro já haviam lhe rendido uma vida confortável, como dono de loja, mas o conhecimento lhe proporcionou dar voz ao seu real potencial.

“Para mim foi uma grande oportunidade ter entrado no SESI. A partir daí, fui capaz de enxergar um horizonte diferente. Comecei a perceber que eu era um vencedor e não sabia. Nessa época eu já era empresário, tinha minha própria loja. Eu estava preparado para vida, mas não sabia que ainda faltava um detalhe: o conhecimento. Foi uma libertação. Hoje, graças a Deus, sou rodeado de conhecimento e isso me faz ser livre. O conhecimento liberta”, conclui Francisco.


Para ver o depoimento de Francisco Alfredo de Souza e de outros alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Serviço Social da Indústria (SESI) você pode:

  • Acessar o GloboPlay, se for assinante, pelo link: https://globoplay.globo.com/segunda-chamada/t/DYpvss7pz5/
  • Se não for assinante, acompanhar a série na TV Globo. Os episódios vão ao ar com os depoimentos dos nossos alunos durante os créditos finais dos programas nos seguintes dias:
    • 19 de novembro (Juçara Moraes, Raquel Borges e Aline da Cunha);
    • 03 de dezembro (Marilson Melo, Leila Lobato e André da Silva); e
    • 10 de dezembro (Tânia Souza, Luciana do Nascimento e Vanuse Moura).
  • Ou navegue em www.sempresesisenai.com.br/segunda-chamada para ver mais cases como este.